Esperar, esperar, esperança
Segundo o dicionário a palavra esperar vem do latin sperare, que significa ter esperança
Aos quatorze anos, usei aparelho nos dentes. Todo mês, durante quase dois anos, voltava ao consultório para manutenção. Ficava perto de casa, então eu ia sozinha. A recepcionista de voz fina me anunciava, eu subia as escadas e aguardava. Raramente encontrava alguém na sala de espera. Maria Helena, a dentista, nunca cumpria o horário marcado. Demorava uma hora para me chamar. Escutava a recepcionista atender telefonemas e folheava revistas Caras. Ainda lembro das cadeiras de metal com estofado azul, o lustre oval, e a o quadro de dois cavalos na parede.
Na faculdade, senti falta do cigarro que nunca fumei. Queria ter companhia enquanto esperava por 1h ou 2h minha carona de volta para a casa. Na época já havia celular, mas o meu só fazia ligações, e o custo era alto. Sozinha, sentada no murinho, eu acompanhava o povo entrar, sair, comprar pastel e negociar valor de pulseirinhas com hippies. Como havia movimento, diferente da sala da dentista, a espera não parecia tão perdida.
Bom, tudo isso já tem mais de vinte anos. Antes do smathphone se popularizar, antes do wi-fi, redes sociais, e dos nossos dedinhos estarem viciados a digitar os números da senha de desbloqueio a cada 10 segundos. Esperar significava esperar mesmo. Quando estamos entediados, o tempo se dilata. E, sobra de tempo, é o fetiche da modernidade.
Hoje, quando chego na estação para esperar o trem, olho em volta, todas as cabecinhas inclinadas para baixo, “text neck”, é o nome dessa síndrome-postura. Os corpos estão ali em encontro uns dos outros, mas os olhos correm ligeiros em vidas alheias, trabalho e memes, totalmente ausente do lugar físico que o corpo ocupa.
Outro dia enquanto esperava o horário do cinema, entrei numa livraria, e sem querer encontrei o livro “Odeio Esperar”. Fui chamada pelo título, que amei, e pelas ilustrações que tem uma pegada caótica-divertida. Ali mesmo li o livro inteiro. Uma menina imagina sempre duas cenas diferentes (uma mais comum, outra mais louca) enquanto espera o ônibus, a comida num restaurante, ou na fila do supermercado.
O livro me levou para as memórias de espera, como mudou antes e depois do celular. Esperar era uma condição que te obrigava a não fazer nada, a olhar ao redor, a perceber a pintura descascada da parede enquanto elevador não chega. Um tempo perdido, definiria os neoliberais ávidos por produtividade.
Segundo o dicionário a palavra esperar vem do latin sperare, que significa ter esperança. Quando estamos no laboratório, aguardando o resultado de um exame exercitamos uma forma antiga de fé. Esperar é manter aberto um espaço dentro de si para o que ainda não aconteceu. Olha só que curioso, estamos entregando nosso tempo “perdido” de espera/esperança aos anúncios, ao trabalho a Marck Zuckemberg, e o pior, a troco de memes.





